Chico Buarque, engenhando
Bem-Querer

Quando o meu bem querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais

E quando o seu bem querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais

E quando o seu bem querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás


Edson Pena e Guimarães Rosa, engenhando
Arvorecer

Abra os seus olhos
Nunca anoitecerá
Incerteza é o que há
No cimo dourado do arvorecer
Abra os seus olhos
Que o tempo virá
E com ele a saudade
Do vôo dourado no alvorecer
Sem sua mãe, menino
Você perde a cabeça e perde o corpo
Num segundo, o brinquedo vira outro
Só pra iludir
Abra os seus olhos
Você vai voar
Como ave que há
No cimo dourado do arvorecer
Abra os seus olhos
Que a saudade virá
Quando em casa lembrar
Do vôo dourado no alvorecer
Sem sua mãe, menino
Você perde a cabeça e perde o corpo
Num segundo, o brinquedo vira outro
Só pra iludir

Comentários

  1. Tudo que move é sagrado
    E remove as montanhas
    Com todo o cuidado, meu amor.
    Enquanto a chama arder
    Todo dia te ver passar
    Tudo viver a teu lado
    Com arco da promessa
    Do azul pintado, pra durar.

    Abelha fazendo o mel
    Vale o tempo que não voou
    A estrela caiu do céu
    O pedido que se pensou
    O destino que se cumpriu
    De sentir seu calor
    E ser todo
    Todo dia é de viver
    Para ser o que for
    E ser tudo

    Sim, todo amor é sagrado
    E o fruto do trabalho
    É mais que sagrado, meu amor.

    A massa que faz o pão
    Vale a luz do teu suor
    Lembra que o sono é sagrado
    E alimenta de horizontes
    O tempo acordado, de viver.
    No inverno te proteger, no verão sair pra pescar
    No outono te conhecer, primavera poder gostar
    No estio me derreter pra na chuva dançar e andar junto

    O destino que se cumpriu
    De sentir seu calor
    E ser todo
    (Beto Guedes – Amor de Índio)

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