No momento em que os picotes da carta atingiram o asfalto da madrugada, cãos vadios que desciam o breu côncavo de uma ladeira começaram a vociferar. Algo no peito feito um bagaço vivo ainda palpitava. Mas palpitava apertado, esfolando a cada ofegante choro seco que engolia. Sentiu uma raiva tremenda dos cães que avançavam, e gritou em voz baixa, venham seus miseráveis, retirem o resto da carniça, venham, que a mulher que eu mais amei me desprezou, devolveu-me a carta que escrevi, dizendo que a mim e só a mim a carta que escrevi era de fato destinada. “As cartas são para quem as escreve.”
(...)



Tiago Novaes, engenhando

do conto “Revoadas
extraído da Antologia de Nelson de Oliveira, “15 contos brasileiros

Comentários

  1. Ah esse menino é bom.... sentia que era bom quando peguei aquele livro estado vegetativo.... pena que ainda não lí.... não estava no meu momento.... mas ele é bom mesmo né!!!.... uma graça!!!

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